7 min de leitura Autor: Gerardo Carvalho

Inovação no varejo: como o olhar do negócio potencializa a transformação digital

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Um gerente de loja decide, às seis da manhã, quanto pedir de um item que rompeu três vezes no mês passado. Ele não abre um painel de indicadores. Ele olha para a gôndola vazia, usa a intuição acumulada em anos de chão de loja e chuta um número no sistema. Toda a discussão sobre transformação digital no varejo se resolve ou se perde exatamente nesse instante. Nenhuma arquitetura de dados importa se não chega com utilidade real na ponta. 

No atacarejo, onde a margem é justa e o volume é gigante, tecnologia não pode ser exercício de vaidade corporativa. Se a inovação não altera a decisão de quem está na operação, é apenas custo com nome moderno. 

1. A ilusão dos pilotos e o verdadeiro dono da IA 

Os últimos anos de feiras e eventos de varejo deixaram um rastro de pilotos de inteligência artificial e automação que nunca saíram do laboratório. A maior parte das iniciativas digitais no setor não morre por falha de código ou infraestrutura de TI. Morre por falta de dono no negócio. 

Enquanto a inteligência artificial for vista como um projeto do time de tecnologia, continuará sendo um teste bonito para mostrar ao conselho, mas inútil no dia a dia. A ferramenta só ganha tração quando a diretoria comercial ou de operações assume a meta em voz alta: o modelo reduz a ruptura em 1,5% ou o projeto falhou. A TI entrega o meio, mas a responsabilidade pelo resultado financeiro e operacional é de quem vive a rotina da área. 

2. A farsa da integração com orçamento fatiado 

Falar sobre alinhar tecnologia e negócio virou mantra corporativo vazio. Na prática, a colaboração trava no momento em que o orçamento é aprovado de forma separada. O comercial quer vender mais a qualquer custo, a logística quer reduzir o frete e a TI é cobrada apenas por redução de custos. 

Na rede onde atuo, com 36 lojas de atacarejo no Centro-Oeste, o desafio de integrar o físico ao digital não se resolve com reuniões de alinhamento, mas com a revisão das metas de cada área. O executivo de tecnologia que se limita a gerenciar infraestrutura e cortar custos de licença tem prazo de validade curto. O papel da liderança de tecnologia hoje é sentar na mesa de estratégia e questionar o negócio sobre como a inteligência de dados pode gerar margem na negociação com a indústria ou antecipar a demanda regional antes do concorrente. 

3. Ninguém inova no isolamento: a troca que economiza recursos 

Nenhum executivo resolve os desafios da transformação digital sozinho na sua sala. A complexidade do varejo exige proximidade com o mercado. Foi com essa visão que ajudei a fundar o CIO Cerrado, uma comunidade que reúne lideranças de tecnologia para compartilhar problemas e aprendizados reais. 

O valor dessa troca não é a conversa social, mas a proteção do caixa. Em uma das reuniões, tínhamos a intenção de contratar uma plataforma de dados com uma demonstração comercial impecável. Bastaram quinze minutos de conversa com dois executivos do grupo para descobrir que a ferramenta exigia um custo de adaptação três vezes maior que a licença original, além de não ter suporte regional. A contratação foi cancelada antes da assinatura. O executivo que se isola na própria empresa corre o risco de pagar caro para cometer erros que os concorrentes já mapearam e evitaram. 

4. O aprendizado do erro: a teoria do algoritmo e a rotina da loja 

A literatura de gestão valoriza o discurso de testar rápido e ajustar o curso. O que ela não mostra é o custo dos testes que dão errado antes de trazerem retorno. 

Anos atrás, testamos um modelo preditivo de precificação e estoque em três lojas. O sistema parecia correto nas simulações, mas, em seis semanas de teste, ignorou comportamentos sazonais de compra no interior que os gerentes conheciam de cabeça. O resultado foi um desequilíbrio direto na margem, com estoque parado em duas categorias e falta de produto nos itens de maior venda. 

O erro saiu caro e deixou dois aprendizados claros: 

  • Modelos de previsão não substituem a leitura prática do negócio; eles apenas a amplificam. 
  • A adoção só acontece quando a ferramenta facilita a vida de quem opera, em vez de criar burocracia digital. 

Recuamos, ajustamos os modelos para incluir as informações do chão de loja e transformamos o sistema em um assistente de sugestão. Só assim o projeto ganhou escala para as 36 unidades. 

A transformação digital no varejo não é um debate abstrato sobre o futuro da tecnologia. 
É uma disputa diária por eficiência, margem e sobrevivência. 


Se a estratégia de tecnologia da sua empresa não provoca incômodo na mesa da diretoria, não aprende com o mercado e não muda a rotina de quem está na loja às seis da manhã, você não está inovando. Está apenas pagando caro para continuar no mesmo lugar. 

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Autor

Gerardo Carvalho

Gerardo Carvalho

Diretor de TI e Inovação do Atacadão Dia a Dia e cofundador do CIO do Cerrado

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